Spirit Rede Social de Fãs de Animes, Mangás, Músicas e Cultura em Geral

Faça sua conta no Spirit e Observe essa Fanfic, assim você será avisado sempre que tiver alguma novidade, você também poderá deixar seu Comentário estimulando o autor a continuar a Fanfic.

Fanfic Candor Lunar: Livro 2 - Capítulo 34

Escrita por ~

Postado
Categorias Saga Crepúsculo
Personagens Alice, Aro, Bella, Caius, Carlisle, Edward, Esme, Jacob, Jasper, Kaori, Kate, Marcus, Nessie, Seth
Tags Aventura, Drama, Lobisomens, Morte, Vampiros
Exibições 404
Palavras 9.836
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Romance e Novela
Avisos: Adultério, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo em que se passa, não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual, sendo vedada a utilização por outros autores sem minha prévia autorização. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá.

Finalmente, correndo tudo eu consegui diminuir um pouco o tempo dos capitulos.
Espero conseguir postar perto do prazo de duas semanas.

Este era um dos capítulos que eu esperava postar desde o primeiro Capítulo do Livro 1, srsrs
Abraços.
Ang.

Capítulo 34 - Arian: O que não deve ser libertado


Fanfic / Fanfiction de Saga Crepúsculo - Candor Lunar: Livro 2 - Capítulo 34 - Arian: O que não deve ser libertado

 

A superfície estava logo ali a pouco menos de quinhentos degraus de distância, com os ouvidos apurados ela discernia gritos e golpes ecoando no alto onde uma pequena e mortífera batalha estava sendo travada. Usava a velocidade dos vampiros quase em sua totalidade, chocando-se com as paredes curvilíneas do túnel e atirando-se como um cometa fulgurante rumo à saída daquelas catacumbas; dez degraus, vinte... cinquenta de uma só vez. O uivo do vento produzido pelo rastro de seu corpo ecoava pelas escadarias frias de rocha sólida, o túnel já havia visto dois vampiros passarem apressados por ali e agora uma vampira subia a toda velocidade para ajudar a decidir o destino dos que lutavam na superfície.

Se o coração de Alice ainda batesse provavelmente estaria martelando como um tambor em frenesi, ela sentia no perigo a que estava prestes a se submeter... os guardas não seriam ludibriados por ela, pois sabiam que havia sido presa e que somente o Rei tinha poder para libertá-la. E o fato de ela estar em liberdade chamaria a atenção dos guardas fazendo com que alguns se voltassem para as catacumbas e para Edward e seu pequeno grupo. Era capaz de os vampiros manterem sua integridade física, mas jamais aceitariam suas ordens... mesmo sendo uma princesa, bem, ela era uma princesa prisioneira e seu lugar era a prisão até o retorno de Aro ou de Bella.

Mas, apesar de tudo isso ter passado por sua mente como um relâmpago, não era o que fazer quando chegasse à superfície que incomodava Alice, mas Jasper e Matheu. Quando soube que seu marido estava vivo houve um alívio imenso nela, como se uma sombra de tristeza deixasse seu coração, ela amava Jasper. Mas negar que estava apaixonada por Matheu seria mentir para si mesma.

Alice não era mais uma menina, mas uma vampira secular, e ela sabia perfeitamente bem a diferença abismal que existia entre paixão e amor. Amor se constrói e está inerentemente ligado à confiança, trata-se de um sentimento lento que se ramifica através do tempo e pode crescer e brotar na forma de flor, ou ramificar-se peçonhentamente e culminar em uma erva daninha. Amor deliberadamente é reconhecido como um sentimento complexo e cheio de viés, não é algo reto e perfeito, mas cheio de curvas, abismos, escarpas e, sobretudo, imperfeito. E talvez seja a imperfeição do amor que o torne um sentimento tão profundo e tão poderoso, muitos diriam que o amor é justamente a força mais poderosa que existe no mundo... a história prova isso: muito já foi construído e destruído em nome do amor.

Paixão é loucura, enquanto o amor é fogo que não queima, a paixão causa incêndios incontroláveis e desmedidos, é um fogo que começa inesperadamente e se espalha conforme o vento do coração o direcione. Acima de tudo a paixão é uma loucura que toma a alma, deturpa sentidos e gera algo tão exageradamente bom que beira o pecado, este é o problema fundamental da paixão, afinal, o que a loucura é a não ser a ausência da autopreservação?

Paixão é destruição, é algo que não pode ser represado, simplesmente explode e dependendo das circunstâncias fere não apenas os apaixonados, mas também os que estão próximos. O dano colateral da paixão é o mais destrutível que pode haver... é incontido, irracional e danoso como um tsunami: não podemos fugir dele, não podemos nos proteger e não podemos prever.

Paixão e amor são diferentes em todos os sentidos. Alice amava Jasper... mas estava apaixonada por Matheu e não poderia haver jamais um equilíbrio nisso tudo. O amor por seu marido seria mais forte do que a paixão pelo cavaleiro? Quando pensava em Jasper ela sentia uma vida confortável, tranquilidade e confiança... mas a loucura, ah, a loucura que lhe vinha quando se lembrava de Matheu era quase sufocante. Matheu era o desconhecido envolto em promessas misteriosas de um futuro incerto; o cavaleiro era algo novo, desmedido, algo imprevisto e totalmente descontrolado... desvairado. O coração de Alice se tranquilizava com Jasper, mas incendiava-se com Matheu.

Esta era diferença básica entre amor e paixão. Um corria como um rio tranquilo e o outro como um oceano agitado; no primeiro, Alice navegaria para sempre com sutileza e paz, mas o outro ela poderia afogar-se para sempre. Isso a agoniava, a deixava sem saber o que fazer... amor ou paixão? Jasper ou Matheu? Se salvar ou se perder?

“Agora sei exatamente pelo que Bella passou” pensou Alice consigo mesma lembrando-se do antigo triangulo amoroso entre a irmã, Edward e Jacob.

Mas apesar disso tudo, inevitavelmente, Alice teria de lidar com o que se apresentasse à sua frente, forçaria seu coração a deixar Matheu e ficaria ao lado de Jasper, seu companheiro de tantos anos. O que aconteceria depois, naqueles anos vindouros, sempre pesaria no coração dela. A sua escolha culminaria em uma série de tragédias, uma montanha de mágoas... ela seria, muito provavelmente, apontada como a responsável de pelo menos uma grama de culpa pelo que aconteceria ao mundo dali a um século. Alice, sem saber enquanto corria pelas escadarias, decidiria o destino de dois homens para sempre.

 

A noite abriu-se para ela de repente. Alice saiu derrapando pelo portal de acesso ao pátio e viu que ali jaziam muitos corpos mutilados de vampiros, o mais próximo dela tinha metade da cabeça decepada pelo que pareciam ser marcas de dentes imensos. Havia gritos e lutas, talvez da ala oeste pelo que ela pode apurar, Jasper e os outros estavam lá e foi para este lugar que ela rumou correndo.

Porém, antes mesmo de cruzar o pátio, deu de cara com dois guardas que a olharam com espanto.

- Princesa Alice – chamou um deles – O que está acontecendo?

- Há intrusos em Volterra, vão para a ala norte rápido – disse ela tentando não parecer culpada de forma alguma.

- Mas ouvimos dizer que os invasores estavam na ala oeste – afirmou o outro.

- E eu soube que é apenas distração para que os outros entrem no Salão dos Tronos, não discutam vão para lá imediatamente – reforçou ela tentando mandá-los para longe de Jasper.

- A senhora não estava presa nas catacumbas? - indagou o primeiro guarda arqueando uma sobrancelha.

- Mas não estou mais, faça o que eu mando, servo! - gritou Alice numa voz perigosa e os dois guardas trataram se sumir dali rapidamente.

Apesar de ter dado sorte, Alice sabia que não poderia usar o mesmo argumento duas vezes, nem todos os guardas eram tolos, havia entre eles seres quase tão antigos quanto os próprios reis e que apesar de pertencerem a uma casta inferior, poderiam muito bem demonstrar insolência uma vez que seus mestres não estavam em casa. Principalmente para ela, afinal, toda Volterra sabia que ela havia sido presa por Aro como castigo por algo que havia feito.

Retomando seu caminho, Alice já se enveredava para o lado Oeste quando parou novamente e escondeu-se nas sombras no momento em que um grupo de mais de quinze guardas passou por ela velozmente rumo à ala oeste do castelo.

“São muitos” pensou Alice e só depois disso percebeu o horror da situação: a ala oeste é o quartel general dos Guardas de Volterra. Todos os guardas estão lá. Ela não tinha noção de quantos haviam rumado para o Pináculo da Luz, mas mesmo se mais da metade deles tivessem ido para lá, ainda assim restaria mais de uma centena com tranquilidade. Ela sozinha não poderia ajudar Jasper e ali, rapidamente, começou a calcular as chances.

Por mais que Jacob e Seth fossem fortes, eles sozinhos não dariam conta de tantos vampiros. Somente Edward e Jasper possuíam dons especiais e apenas Jasper tinha poder de atingir muitos de uma só vez como ataque; Alec tinha seu poder comprometido pelo que Alice ouvira falar e o dom de Kaori era apenas para comunicação. Mesmo que seu irmão tenha libertado Miguel e Alexandrovich, eles continuavam em uma desproporção muito grande de forças, com o tempo seriam rapidamente sobrepujados.

Como ela poderia ajudar? A quem ela pediria auxílio ali, no coração de Volterra?

A resposta veio como um arrepio em seu coração... só havia um vampiro que se disporia a ajudá-la.

Matheu, o Cavaleiro do Portão Leste.

 

Alice enveredou para a direção contrária a que seguia, teve de cruzar os pátios desnudos e iluminados e contornar as torres de pedra que se erguiam daquele lado, a todo o momento escutava gritos e golpes ecoando por ali, assim como via vampiros da guarda se deslocando pelos pátios em direção a ala oeste. Às vezes muitos e às vezes poucos e até mesmo pode ver um ou outro vampiro desgarrado correndo solitário por ali sem saber ao certo o que acontecia.

Sorrateiramente Alice chegou àquele vazio escuro que havia na ala Leste. O jardim de Caius. O Jardim do Bem e do Mal. Diferente dos Jardins de Aro e Marcus, aquele jardim não possuía qualquer lamparina ou poste de luz para tirá-lo da escuridão, apenas a luz das estrelas iluminava o gramado absolutamente reto; era o local de meditação de Caius e o rei não gostava de nada para atrapalhar seus pensamentos... nem mesmo luzes artificiais e isso era bom para encobrir a movimentação da vampira.

Alice percorreu a escuridão do gramado macio até encontrar o estranho e raso espelho d'água que era o coração do jardim de Caius, sem sofrer nenhuma crispação em sua superfície espelhada o pequeno lago parecia um olho escuro escancarado para o céu; Alice encarou aquela água estática e imaginou quantos pecados Caius já havia segredado àquele lugar.

Os bancos de mármore pareciam fantasmas brancos no meio da escuridão e Alice sentiu o perfume doce das flores de jasmim que floresciam ao redor do lago, aquilo a fez lembrar de uma vez, quando caminhava até Matheu, que vira Aro beijar Bella naquele mesmo lugar, sob um céu de estrelas reluzentes e mal intencionadas.

Foi naquela mesma noite que Matheu a beijou... a noite em que ela se perdeu.

O jardim a deixou com aquele perfume doce quando Alice se aproximou da muralha circular, ali caminhou rente às rochas frias para evitar que algum possível guarda a enxergasse das ameias acima, ela precisaria percorrer quase duzentos metros até encontrar o Portão Leste. À medida que se aproximava de seu destino ela sentiu aquele estranho frio na barriga, um nervosismo prazeroso se instalou nela como quando esperamos boas notícias de alguém. Ela sabia o que era isso, era seu coração louco chamando por Matheu.

Cuidadosamente ela se aproximou do túnel que se abria para o Portão Leste, Alice deu uma olhada para dentro e viu que o Portão estava aberto e sob ele a figura alta e imponente de Matheu se encontrava silenciosamente parada envolta em sua capa esvoaçante... o vampiro olhava para a noite da cidade, para as casas adormecidas e para as luzes sonolentas dos postes de iluminação. A vampira entrou no túnel sem fazer qualquer som.

- Matheu – chamou Alice numa voz quebradiça.

- Alice? - estranhou Matheu virando-se para ela, mas um segundo depois já estava à sua frente olhando-a com espanto – Minha princesa, você foi libertada!

- Na verdade é mais complicado que isso... Matheu, eu preciso lhe contar algo.

E Alice perdeu a voz, o nexo do que pretendia falar, no momento em que encarou Matheu. Assim como os olhos de Alice tinham um tom mais claro de dourado, os de Matheu eram de um vermelho diferente do de tantos outros vampiros que ela já vira, era um vermelho claro e faiscante que pendia para um cereja luminoso... eram olhos doces, sinceros e honestos. E aqueles olhos eram emoldurados por uma face reta e bonita, com traços fortes e determinados que tornava o rosto de Matheu perfeito como uma escultura de mármore. Alice sentiu o perfume natural que exalava do vampiro, dos cabelos compridos e negros que caiam pelas costas do cavaleiro; sentiu o toque daquela capa sempre esvoaçante que teimava em abraçar os dois quando estavam próximos um do outro.

O olhar de Matheu era o ponto fraco de Alice.

Ela sempre encontrava sombras nos olhos de Jasper, a mesma espécie de sombra que havia em alguns dos próprios Volturis. E havia ódio também, um ódio que Jasper teimava em represar dentro de si e esconder dela, mas Alice sempre o sentia queimando seu marido por dentro... aquela raiva que poderia ser capaz de destruir o mundo, uma raiva que ela não compreendia de onde vinha, do que era alimentada. Jasper era um soldado, foi criado para matar e ela temia que isso fosse o que ele realmente nascera para fazer... e para ser.

Mas Matheu apesar de também ser um guerreiro, apesar de ter sido um Mercador da Morte, tinha em seu olhar um brilho diferente... era como se não houvesse sombra em sua alma, como se ele honestamente fosse bom. Essencialmente simples. Simplesmente bom. Alice não tinha certeza de como sabia disso, mas talvez fora justamente este sentimento que permitiu que seu coração se abrisse para o Cavaleiro... essa estranha aura que Matheu lançava sobre ela, uma aura de verdade.

- Como sempre, estou ouvindo-a senhora – disse ele olhando-a com atenção.

- Matheu... preciso de sua ajuda e não tenho muito tempo – disse ela com urgência – Jasper está aqui.

- Seu marido? - surpreendeu-se o cavaleiro – Está aqui em Volterra?

- Sim, ele e meu irmão Edward... eles me libertaram das catacumbas...

- Impossível, minha senhora... apenas Aro poderia libertá-la.

- Matheu, isso é muito sério – desesperou-se Alice – Eu não sei como fizeram, mas fizeram. Alec estava com eles e mais um vampira que não reconheci, eles abriram as celas e libertaram a mim e dois outros vampiros que estavam lá. Jasper está na ala oeste lutando com meu pai e outros amigos meus... Edward ficou nas catacumbas, disse que tinha algo mais a fazer... mas eu preciso de sua ajuda. Por favor, me ajude. Eu imploro.

O cavaleiro olhou para além de Alice, parecia que tentava alcançar com o olhar as catacumbas de Volterra, deu a impressão de estar levemente confuso com tudo o que Alice havia dito, era como se tivesse visualizando uma oportunidade. E neste ponto Alice temeu que sua escolha tivesse sido a errada, afinal de contas, apaixonado ou não, Matheu era um Volturi... será que ele se viraria contra ela?

- Você tem minha lealdade e meu coração, minha senhora. Se me pede para ajudar a manter seu marido vivo, assim eu o farei – respondeu Matheu fazendo uma mesura a Alice, mas havia tristeza em seu olhar, pois agora, afinal, ela não poderia mais ser dele.

- Eu... - começou Alice, mas o cavaleiro a interrompeu educadamente com um sorriso.

- Não é preciso dizer nada. Eu já havia lhe falado uma vez... não é certo uma princesa amar um cavaleiro. Vamos.

“Não é certo uma mulher ter o coração dividido” pensou Alice consigo mesma enquanto seguia o cavaleiro para longe do portão leste.

Matheu caminhava irresoluto com a lança firmemente segura na mão direita, o cavaleiro não se voltou uma única vez para falar com Alice até chegarem ao Jardim do Bem e do Mal a caminho da ala oeste do palácio. Mas o silêncio de Matheu já era indício suficiente para que Alice soubesse que ele estava triste por não poder tê-la, mas era algo inevitável agora que Jasper surgira do mundo dos mortos... mas Alice também sabia que ele só aceitou ajudá-la por conta do amor que sentia por ela. E isso, definitivamente, fazia com que ela se sentisse ainda pior.

Alice queria dizer algo, mas dizer o que? Que estava apaixonada por ele apesar de não poderem ficar juntos? Que ela estava dividida sem saber o que fazer? Nada disso ajudaria e poderia até piorar, ela não poderia dar esperanças a Matheu... e isso a enfurecia consigo mesma. Conhecia o cavaleiro há semanas enquanto Jasper estava com ela há décadas, ela amaldiçoava que a paixão fosse de tal forma avassaladora e incontrolável a ponto de ela ficar daquela maneira... louca para se queimar a jogar tudo fora.

Entretanto, ela sentia que lhe devia alguma explicação, afinal de contas, ele estava indo lutar por ela e para salvar Jasper. Estava colocando a própria vida em risco principalmente por estar prestes a trair os Três. E no momento em que ergueu a mão para tocar Matheu ela ouviu um grito alto ecoar pelos pátios e pelo jardim escuro.

- LÁ ESTÁ ELA!

Ao olhar para o lado, Alice percebeu que o grito viera justamente de um dos guardas que ela pensara ter enganado há poucos minutos, ele caminhava com passos firmes e uma cara de poucos amigos seguido de perto por uma turba de pelo menos quatorze guardas do palácio.

- Você aí, cavaleiro – tornou a chamar o vampiro – Segure-a aí, ela foi solta pelos invasores.

- Ela é sua Princesa, tolo – gritou Matheu em resposta colocando-se a frente de Alice – Como ousa tratá-la desta forma.

- Princesa ou não ela foi solta sem a autorização de mestre Aro. Deveria ter ficado lá, além do mais, já ouvimos falar que é o marido dela quem está causando toda esta confusão... um dos Cullen que deveria estar morto!

Eles ainda estavam longe, mas para vampiros seria questão de segundos para cruzar o espaço que os separavam... quatorze era um número grande demais para apenas os dois enfrentarem. E foi aí que Matheu deu um passo para longe de Alice e se voltou para ela com o rosto sério.

- Minha senhora... vá. Eu os deterei aqui – disse Matheu erguendo a lança.

- O que? Não, de jeito nenhum... são muitos para você – assustou-se Alice.

- Eles não podem pegá-la... infelizmente não poderei ajudá-la a libertar seus amigos, mas também bem algum será feito caso eles a capturem, poderão obrigar seu marido e seu irmão a se renderem usando-a como refém.

De fato, isso seria péssimo... colocaria Jasper e Edward em cheque. Matheu tinha razão, mas só a ideia de deixá-lo ali para morrer encolhia seu coração.

- Matheu... - chamou a vampira numa voz fraca.

- Vá – ordenou o cavaleiro de forma indiscutível – Vá e viva...

E Alice afastou-se dele, o deixaria lá com uma mínima chance de sobreviver, no fim fora até Matheu apenas para condená-lo a morte. Mas fora até ele apenas para pedir ajuda ou para poder ficar sozinha com Matheu uma última vez antes de voltar para Jasper? Será que era o momento de ser hipócrita consigo mesma? E antes de dar dez passos longe do cavaleiro, Alice parou e virou-se para ele chamando-o.

- Matheu, eu lhe devo um beijo – disse ela numa voz assustadoramente alta e segura.

- Minha senhora? - estranhou Matheu e seu rosto denotava urgência.

- Naquela vez em que me beijou, lembra-se do que me disse? “eu prometo que só voltarei a beijá-la quando a senhora me pedir”. Foi o que me disse, eu não quero correr o risco de passar a eternidade sabendo que morreu por mim sem isso ao menos... eu estou lhe pedindo, Matheu, por favor, me beije.

 

Uma hesitação perpassou o rosto do cavaleiro, mas foi algo tão rápido e claro como um relâmpago em dias de tempestade, mesmo naquele momento perigoso onde vampiros avançavam sobre eles, Matheu não se demorou a cruzar o espaço que o separava de sua princesa. Provavelmente seria a última vez que poderia vê-la, sua última chance de beijá-la.

O grande corpo do cavaleiro encontrou o delicado corpo da princesa e os dois se enlaçaram de forma urgente, inflamada e apaixonada. Alice ouvia os gritos dos guardas, mas naquele segundo isso não importava, ela não se importaria de morrer abraçada a Matheu... o cavaleiro que roubara seu coração, qualquer morte seria boa se acontecesse enquanto os lábios dos dois estivessem unidos. Ela sentiu a armadura gelada comprimindo-a, os braços de Matheu a erguendo do solo e apertando-a contra ele com força para que naquele momento infinitesimal ninguém fosse capaz de tirá-la dali.

A capa do cavaleiro - sempre alva e esvoaçante - fechou-se entre os dois como que para proteger e selar aquela paixão complicada e proibida que brotara do nada como orvalho na grama, o beijo de Matheu era um beijo de despedida e justamente por isso era tão profundo, tão lento e rápido, tão triste e feliz, tão doce e amargo... um beijo duplo de paixão e adeus.

E aquele beijo, justamente ali no Jardim do Bem e do Mal, com vampiros vindo atacá-los, definiria parte do destino do mundo dali a algumas décadas... pois aquele beijo selou também o destino de Alice e de todas as suas escolhas para dali em diante.

- Vá... - pediu Matheu agora com tristeza – Eu carregarei para o outro mundo a lembrança deste beijo.

- Não – disse Alice colhendo o rosto do cavaleiro entre as mãos – Viva, por favor... viva. Eu não sei como, nem sei por que, nem sei o que faremos, mas eu imploro que volte... por mim.

E o olhar dos dois se prendeu por mais um segundo que pareceu durar horas. Aquele olhar que somente a paixão pode criar, um sentimento que apenas a paixão proibida é capaz de aflorar nos corações mortais e imortais. Um olhar de perdição.

- Então voltarei – respondeu Matheu – Agora vá... corra. Se afaste daqui e não olhe para trás.

E Alice correu para longe de Matheu... e não olhou para trás.

Mas enquanto cruzava o jardim escuro, enquanto passava pelo espelho d'água que permanecia inabalável e seguro, Alice foi capaz de ainda ouvir a trovejante voz do cavaleiro desafiando seus adversários.

- Tolos – ecoou a voz de Matheu pelo jardim adormecido – Eu sou Matheu Di Galeone, outrora Comandante das Legiões Felix de Flávius Aurélius, sou um Mercador da Morte e companheiro de batalha de Arian Volturi! Como ousam me enfrentar? Eu devastarei suas imprestáveis vidas e esfacelarei seus corpos com minha lança. Venham... tolos, desafiem-me e sintam a agonia de uma morte dolorosa.

E o entrechoque de corpos imortais reverberou pelo jardim imaculado de Caius... sons de luta, de gritos e de desespero e o cheiro da morte invadiu Volterra com ainda mais força.

Mas mesmo assim, Alice não teve coragem de olhar para trás.

Nem uma única vez.

 

O cheiro do sangue queimava com um leve odor de ferrugem em suas narinas, o grande lobo havia acabado de destruir mais uma atacante, uma vampira baixa com uma cara mirrada e azeda que surgiu do corredor lateral com uma imensa espada de guerra nas mãos. Jacob não se importava com a velocidade dos vampiros, eram mais lentos que ele, mas uma vampira portando uma espada com um metro e setenta de comprimento já era uma coisa diferente. A lâmina fizera um rasgo no lado esquerdo de seu rosto, do alto da têmpora até a garganta... quase atingiu um olho, mas por sorte apenas os primeiros goles de sangue jorraram de seu ferimento, pois instantaneamente o fator de cura acelerado dos lobos foi ativado e fechou o corte profundo em alguns segundos. Mas o sangue esparramou-se por seus pelos densos deixando no ar aquele cheiro ferruginoso e ardente.

- De onde diabo aquela desgraçada tirou a espada? - irritou-se Garret ao lado do lobo.

- O corredor lateral, vê? - disse Vrau Urban apontando para o lado – Há uma galeria de armaduras e armas ali... infelizmente não foi uma boa escolha ficarmos presos aqui.

“Que ótimo” - suspirou Jacob em sua mente solitária. Longe de Kaori ele não era capaz de se comunicar com os companheiros vampiros.

E neste momento, um vampiro despencou de sabe-se lá onde e aterrissou no meio do grupo pegando-os completamente desprevenidos, tanto que o guarda atingiu Carlisle no peito com um golpe violento atirando-o no chão, mas por sorte Vrau Urban e Garret agarram o agressor pelos braços enquanto Jasper o decapitava. Aproveitando a distração, um segundo guarda atacou o grupo pela retaguarda, mas Jacob, veloz como um raio, feriu o vampiro gravemente com suas garras e atirou-o para longe deles.

Novamente na formação, Garret soltou um suspiro de desalento.

- Viria bem a calhar uma barreira como aquela que Charlotte mexeu antes de entrarmos aqui.

- Sabe, você acaba de me dar uma ideia – disse Jasper ajudando Carlisle a se levantar do chão – Você está bem?

- Sim, obrigado – respondeu Carlisle – Apenas com o orgulho ferido.

- Vou tentar uma coisa – declarou Jasper posicionando-se e fazendo cara de concentração.

O grupo se preparou para um possível impacto quando mais dois guardas desceram as escadas apressados com caras de poucos amigos, vieram seguidos por três companheiros que surgiram de um dos corredores laterais.

“Estão testando nossas defesas de maneira sistemática” - pensou Jacob.

Entretanto, no momento em que os cinco atacantes se aproximaram a cerca de três metros do grupo, pararam repentinamente como se uma força invisível os estivesse paralisado; seus rostos expressaram um leve anuviamento e em seguida um terror repentino. Depois disso, os cinco guardas desataram a correr para longe do grupo, corriam como desvairados, como assustados e depois que atingiram uma distancia segura, tornaram a voltar-se e gritaram palavras de ódio e indignação.

- O que você fez? - perguntou Carlisle surpreso.

- Lembrei-me das barreiras que Charlotte encontrou pelo caminho e isso me deu uma ideia – contou Jasper – Estipulei um limite para o meu poder ao em vez de dispersá-lo por todos os lados do salão, visualizei uma barreira em minha mente e deixei o poder se acumular ali e ao nosso redor. Todo guarda que tentar se aproximar de nós saíra correndo como um covarde.

- Quanto tempo você será capaz de aguentar? - quis saber Vrau Urban

- Não sei, preciso me concentrar o tempo todo nisso... espero que Edward não se demore muito com Seth, com eles poderemos sobrepujar a força dos guardas e explicar que eles jamais sairão daqui a não ser sob nosso consentimento.

“Mandou bem, Jass” - comentou Jacob antes de se lembrar que ninguém ali poderia ouvi-lo.

Não demorou muito para que um destacamento de seis guardas saísse de sua posição para tentar atacá-los novamente, mas o resultado foi o mesmo. Há poucos metros do grupo, os guardas forem enredados no dom de Jasper e se afastaram berrando de medo. Uma vez mais eles estavam ilesos.

- Acho que isso se tornará contraproducente com o tempo – analisou Carlisle – Precisamos de algo que os impeça de nos atacar definitivamente para que aos poucos possamos empurrá-los para fora. Aqui estamos encurralados.

- Carlisle tem razão – opinou Garret – Acho que deveríamos mostrar algo que os aterrorizasse mais.

- Então vamos ver – respondeu Jasper parecendo nitidamente concentrado.

Passou-se poucos minutos até que um único guarda surgisse com uma lança na mão – provavelmente emprestada do rol de armas do salão ao lado, ele veio lentamente, passo a passo, como se procurasse saber se a barreira era muito larga ou não... mas no momento em que atingiu o perímetro estipulado por Jasper sua expressão mudou completamente. Seus olhos tornaram-se alegres e não desconfiados e um sorriso idiota surgiu em seus lábios.

O guarda soltou a lança com estrépito para espanto dos companheiros e se aproximou vagarosamente do grupo, entrou no círculo e ainda sorriu para Jacob chamando-o de “cãozinho bonitinho”, mas Jake estava tão impressionado com o comportamento do vampiro que nem ficou irado por ter sido chamado assim. O guarda tranquilamente parou ao lado de Garret e olhou para os companheiros que o encaravam com espanto.

- Olá, tem muita gente aqui hoje – disse o guarda cumprimentando a todos.

- Boa jogada – disse Garret – Ao em vez de afastá-los você os está atraindo para o nosso lado.

- Não estou atraindo-os para o nosso lado – disse Jasper e dito isso laçou a cabeça do guarda e com força decapitou-o, ele ergueu a cabeça pelos cabelos, a face morta ainda com o sorriso bobo preso aos lábios, e gritou alto para ser ouvido em todo o salão – Este é o destino que lhes aguarda se tentarem nos atacar, eu os atrairei para nosso meio e os matarei um a um se for preciso.

Houve uma instantânea tempestade de urros de raiva, indignação e medo vinda dos guardas reunidos nas escadarias, corredores e salas ao redor do salão. O ato de Jasper pareceu realmente causar algum efeito nos vampiros, muitos atiraram as armas que tinham na mão em sinal de protesto, outros correram para o grupo, mas trataram de permanecer bem distantes da invisível barreira de Jasper. Outros ficaram mudos e assombrados com a perspectiva de serem ludibriados pelo maldito dom e mortos em seguida com um sorriso nos lábios. Jasper atirou a cabeça para o meio dos guardas e a raiva aumentou de tamanho... mas ninguém ousou atacá-los.

- Isso realmente foi necessário? - perguntou Carlisle com ar reprovador – O homem estava totalmente indefeso, Jasper.

- Nós estamos indefesos em Volterra, Carlisle – replicou ele indiferente à indignação do companheiro – Se titubearmos ou hesitarmos, morremos. Lembre-se da batalha no Canadá e lembre-se que ninguém aqui é inocente.

O ódio de Jasper queimava como um incêndio irreversível. Carlisle sabia que aquilo era o reflexo da ausência de Alice, era ela quem represava o ódio de Jasper, sem ela... ele tornava-se apenas um vingador, um vampiro frio, letal e inclemente. Tornava-se exatamente o que os vampiros eram em sua essência caso a irracionalidade tomasse conta de seus atos.

- Muito bem, o que faremos agora? - perguntou Vrau Urban.

- Vamos nos afastar, precisamos ir para fora... aqui estamos encurralados – disse Jasper.

- Eles irão nos seguir – avisou Garret.

- Não importa, eles não se aproximarão com medo do meu poder... quando estivermos em um lugar mais propício, damos um jeito de ludibriá-los até que Edward chega a nós.

E dito isso, deram um passo para trás, e outro e mais outro.

E as dezenas de guardas furiosos os seguiram de perto.

 

A tocha bruxuleava tristemente no teto em forma de arco e nas paredes de pedra fria, sua luminescência amarelada e triste causava um sentimento imenso de vazio e de solidão. Edward imaginou o que seria passar quase mil anos preso num lugar destes, ele acompanhava atentamente o ritmo cadente do delineado corpo de Bianca, ela movia-se com graça e elegância ali; volta e meia ela olhava com avidez para trás procurando por Giuliana, sua sede centenária clamando por um gole de sangue.

Mas o pesado corpo de Seth já deixava claro que ela não se alimentaria da menina nem que quisesse.

Com um descontentamento crescente, Edward percebeu que haviam ultrapassado a contagem de quinhentos degraus e ainda não tinham alcançado a ultima profundidade. Ele esperou achando que deveria ser um pouco mais distante, mas no momento em que a contagem chegou a setecentos e Kaori bufou atrás dele, Edward se dirigiu a Bianca dizendo:

- A ultima profundidade é mais distante? Já chegamos a setecentos degraus e até agora nada.

- Você não sabe de nada, Edward Cullen – retorquiu Bianca no seu inglês estranho e com uma profunda ironia na voz – A ultima profundidade fica a cinco mil degraus de distancia além da terceira. Você irá se cansar de contar.

- Cinco mil? - espantou-se Edward – Você poderia nos ter avisado disse, Alec.

- Eu devo ter me esquecido – disse Alec dando de ombros.

- Oh, tens de perdoar meu antigo amigo – Bianca disse de forma ácida – Pelo visto é habito dele esquecer-se de dizer coisas importantes em momentos importantes, não é mesmo Alec?

- Sim, pelo visto ele tem esta mania mesmo – rosnou Kaori azeda quando Alec não respondeu a provocação de Bianca.

E mil degraus se foram quando Seth percebeu a temperatura caindo bruscamente, à singela luz da tocha que Edward carregara o lobo percebeu sua respiração condensando e tornando-se uma névoa tênue e efêmera. Como apenas ele e Giuliana tinham corpos “vivos”, com um coração batendo e bombeando sangue, ninguém mais se tocou que a pequena menina estava congelando.

“Pessoal” - chamou Seth pelo elo de Kaori - “É melhor alguém aí ceder uma muda de roupas para a Giuliana, ela está congelando”.

- O animal fala! - surpreendeu-se Bianca se voltando para olhá-lo.

- Ele não é um animal, Bianca, mas um humano – explicou Edward – Os Lobos de La Push possuem o dom da telepatia entre eles e podem se comunicar a uma longa distância, mas não é o caso agora. Seth se comunicou conosco através do dom de Kaori, ela interliga a mente de todos como uma rede.

- Desculpe – pediu Kaori – Eu devo tê-la absorvido com meu dom sem querer, às vezes acontece automaticamente.

No mesmo momento Kaori pegou a mochila dos ombros e tirou de lá um moletom alcançando-o a Giuliana.

- É a última peça de roupa que eu trouxe comigo – disse ela.

- Eu agradeço muito – respondeu Giuliana com um sorriso tímido e um olhar de humildade.

“Esta menina tem alguma coisa estranha” - declarou Alec na mente de Kaori.

“Por ser educada?” - rebateu Kaori nitidamente ainda chateada por Alec ter escondido o plano de Edward com ele.

“Ela é completamente desapegada à própria vida. Está no meio de vampiros descendo para o núcleo da terra e nem parece se importar, ela nem chiou quando Seth se transformou em um lobo gigante, pelo amor de deus!”

“Está dizendo que ela é louca?”

“Eu não diria louca” - ponderou Alec por alguns segundos antes de responder - “Mas esta criança tem sérias tendências suicidas, ouça o que eu digo”.

“Você só vê a maldade nos outros” - declarou Kaori e apressou o passo deixando Alec alguns degraus atrás.

- Mulheres – suspirou ele me voz alta que ecoou pelo corredor.

“Sem sorte com a japinha?” - gargalhou Seth na mente de Alec.

“Não enche, lobo” - retrucou o Volturi azedo.

 

A descida continuou pelos degraus ecoantes que pareciam infinitos, a monotonia do movimento acabou atirando a todos em um estado letárgico e silencioso. Charlotte chocou-se contra a parede de pedra, a distração demonstrava o medo que ela sentia do lugar para onde estava indo... e do desconforto por Seth estar magoado com ela, afinal, ela manteve o segredo de Edward, um segredo perigoso demais. Depois que a contagem dos degraus chegou a dois mil e trezentos, Giuliana tropeçou nos degraus e só não caiu porque se apoiou em Kaori, a menina já estava caindo de sono depois de tanto caminhar e o frio já havia arroxeado seus lábios... mas ela não tinha reclamado nem por um momento.

Edward, percebendo isso, passou a tocha a Kaori e pegou no colo Giuliana que pareceu-lhe, de repente, leve como uma pena. A menina olhou para o vampiro com seus grandes e expressivos olhos azuis e havia uma leve tristeza neles.

- Eu posso caminhar, não quero incomodá-los – sussurrou ela sonolenta.

- Você não incomoda nada – respondeu Edward com um sorriso amável – Eu poderia carregá-la para sempre sem me cansar, durma um pouco, vai lhe fazer bem. Quando chegarmos eu a despertarei.

- O senhor Jasper ficará bem?

- Não se preocupe com meu irmão... ele é o mais forte de nós.

Giuliana apenas aquiesceu levemente com a cabeça antes de deitar o rosto no ombro de Edward e não demorou nada para que entrasse em um sono profundo. Edward sentiu o perfume dos cabelos dela e soube que tinha alguma coisa de lavanda e chocolate, e só então pensou que o comportamento dela era estranho... era como se a menina não se importasse de correr perigo. Como se não ligasse se saísse dali viva ou não.

E quando ergueu os olhos novamente, Edward pegou Bianca encarando-o com atenção enquanto descia as escadas, quando captou o olhar do vampiro ela lhe sorriu de forma estranha, como se estivesse achando graça de alguma coisa, e tornou a virar a cabeça para a escuridão que estava à frente.

- Muito estranho o comportamento que vocês têm em relação aos humanos – disse Bianca por fim.

- O mundo mudou drasticamente nestes setecentos anos, Bianca – respondeu Edward – Na sua época o mundo era um lugar imenso e alguns de seus territórios totalmente inalcançáveis, mas agora, porém, esta de tal forma super habitado que a população humana chega na casa dos sete bilhões de pessoas. Os homens fizeram muitas guerras desde que você foi aprisionada e desenvolveram armas tão poderosas que uma nação tem poder de destruir outra completamente. Hoje, se algo acontece aqui, o outro lado do mundo fica sabendo quase que instantaneamente. Não se engane quando sair na superfície, atualmente nós temos de ter muito cuidado com o que fazemos ou poderíamos colocar tudo a perder. O mundo que você está prestes a conhecer... acredite, provavelmente lhe infligirá um medo terrível no coração.

- Quanto aos humanos – continuou Edward – Meu pai, Carlisle, é um humanista e nos ensinou o valor da vida humana. Os humanos não podem simplesmente ser descartados hoje como vocês faziam no passado, as leis mudaram.

- As leis são feitas pelos mais fortes, Edward Cullen – respondeu Bianca sorrindo para ele de forma sombria calando-se logo em seguida.

Mas Edward havia entendido o recado de Bianca e as palavras dela lhe causaram um frio horrível na espinha. As leis são feitas pelos mais fortes e eles estavam indo libertar justamente o vampiro mais forte que existia, resumindo tudo, quem controla o mais forte, controla as leis criadas pelo mais forte. Bianca era dona do coração de Arian e seria ela quem controlaria as leis.

Passou-se mais um tempo até que Bianca falasse novamente, Edward já havia se perdido nas contas, mas os degraus já contavam perto dos três mil.

- Conte-me a sua história, Edward Cullen – pediu Bianca – Desejo compreender exatamente os motivos que o trouxeram até aqui.

Por alguns momentos Edward não respondeu. Por alguma razão ele não gostava de Bianca e não sabia se poderia confiar nela, mas a vampira exercia uma presença tão grande, uma influência tão esmagadora que era como se fosse simplesmente impossível negar qualquer coisa a ela. Edward imaginou se Bianca não possuía algum tipo de dom persuasivo que obrigava os outros a se curvarem diante de sua vontade.

Apesar de que não era apenas isso... Bianca tinha alguma coisa que impedia de se afeiçoar a ela imediatamente. Edward julgou que fosse a soberba e a arrogância que ela estampava em seu rosto perfeito... mas talvez fosse algo muito mais profundo que isso.

- Eu me apaixonei por Bella na escola – começou Edward – Sim, eu e meus irmãos tínhamos o hábito de frequentar escolas humanas para passar o tempo e eu conheci minha esposa em uma escola na América do Norte, em uma pequena e chuvosa cidade chamada Forks...

E Edward passou um bom tempo contanto a Bianca sobre tudo o que se passou entre ele e Bella até o casamento, o nascimento de Renesmee, a primeira vinda dos Volturi. Depois relatou os anos de tranquilidade e paz que sua família viveu até os estranhos acontecimentos que culminaram em uma batalha sangrenta e no sequestro de Bella, Renesmee, Alice e Quil. Por fim, ele relatou as viagens e aventuras que havia vivido até ali, naquele momento, caminhando para o fundo do mundo com ela.

Bianca permaneceu em silêncio por alguns minutos e então tornou a olhar para Edward e pela primeira vez ele pensou ter visto uma sombra de espanto naquele inexpressivo rosto de rainha.

- Você tem uma história surpreendente, Edward Cullen – disse ela – Uma filha biológica, híbrida, quem poderia imaginar que isso seria possível? E Aro tornou-se um menino realmente muito travesso... matou o marido para ficar com a esposa, nunca pensei que a mente dele fosse se tornar tão distante a este ponto.

- Mas se tornou e agora os Volturi precisam ser detidos.

- De fato... de fato – respondeu ela de forma evasiva.

 

Os degraus seguiam em sua sucessão eterna, sempre em curva para a direita, sempre conduzindo-os cada vez mais fundo. Seth percebeu que houve uma substancial diminuição no nível de oxigênio ali, nada que pudesse afetá-lo permanentemente, mas o suficiente para fazê-lo imaginar quão fundo aqueles vampiros loucos haviam cavado para criar aquele última prisão.

Giuliana dormia a sono solto e a tocha que Kaori levava já começava a dar sinais de desgaste apesar de continuar crepitando solitariamente em meio àquela escuridão indissipável. Haviam não apenas perdido a contagem dos degraus, mas também a noção de quando tempo estavam ali, na ausência de luz e no silêncio opressor das catacumbas não era possível calcular com precisão tempo e horários. Os imortais, por hábito, dificilmente carregavam relógios uma vez que o tempo não lhes era importante... Kaori tinha um celular, mas perdeu-o no meio da enchente que os atrasara quando chegaram à Itália.

No fim, o grupo entrou em um estado de sonolência e se perdeu em seus próprios pensamentos, caminhavam mecanicamente e porque não tinham outra escolha, desciam pelos degraus porque era o único lugar para onde eram conduzidos. Os sons dos passos ecoavam em uníssono e mesmo Seth, corajoso como todo quileute, já começou a sentir os efeitos da claustrofobia... milhares de toneladas de pedra sobre sua cabeça, sustentados apenas por um túnel de pedra fazia com que certos medos primordiais aflorassem dentro de si.

E foi neste estado de dormência que de repente, sem qualquer aviso, o grupo caiu num ócio silencioso, um vazio tão grande que pareceu comprimir seus corpos... era como se simplesmente tivessem despencado no nada, num limbo temporal e espacial, num lugar onde havia apenas a ausência absoluta do tudo, de qualquer coisa.

- É aqui – ecoou a voz de Bianca que tremeu levemente emocionada.

- Me dê a tocha, Kaori – pediu Alec.

Ele caminhou para o lado direito distanciando-se do grupo que caiu numa escuridão total enquanto acompanhavam com interesse a luz da chama se afastando para o meio do vazio. Alec parecia caminhar no nada, nem teto nem chão havia ali, apenas escuridão. A luz esmaecida não refletia em nada, mas seguia como uma navalha luminosa fendendo a escuridão total.

Alec afastou-se uns prováveis cinquenta ou oitenta metros do grupo até que pareceu ter encontrado o que procurava, ele baixou a tocha até o chão e de repente a luz espalhou-se como rastro de fogo vivo. A luz correu em um imenso círculo por todo o espaço iluminando pareces escuras e brutas tal qual uma gruta incrustada da pedra fria, o teto era de tal forma alto que permaneceu na escuridão, mas todo o resto pode ser revelado.

Alec havia dado vida a um antigo mecanismo de iluminação, o chão, na orla do salão, culminava em uma valeta levemente profunda e cheia de óleo que queima como combustível espalhando o fogo e iluminando tudo. O cheiro no ar era ocre, mas não tóxico e leves torvelinhos de fumaça negra começaram a surgir do óleo queimando.

Mas não foi o salão em si que deixou todos boquiabertos.

À frente do grupo, cerca de quarenta metros além, erguia-se uma imensa porta dupla de madeira enegrecida e rebitada em aço e ferro, uma pesada grade de metal fundido caía como um escudo sobre ela e era tão alta que a luz também não conseguia iluminar toda sua envergadura. Ali, escada há mais de mil metros de profundidade, aquela porta gigantesca causava uma impressão terrível de morte... era um marco. O marco do fim de tudo.

Edward sentiu medo quando encarou aquele lugar, ali repousava o imortal mais poderoso que algum dia caminhara sobre a face do mundo e ele estava preso há quase mil anos. Aquela porta em forma de muralha era a única coisa que separava o resto do mundo de sua fúria e diante dela Edward se arrependeu de ter tido a ideia.

O silêncio era quebrado de leve pelo som das chamas queimando, um som baixinho, quase no limite da audição, semelhante ao bater das asas de borboletas; a luz parecia não querer iluminar aquela porta, como se algo ali fizesse as chamas temerem o que estava preso lá dentro na prisão. Uma prisão escava pelas mãos de escravos vampiros, uma prisão construída com encantamentos malditos... para aprisionar um imortal que era conhecido por sua força quase divina.

E ali havia uma força. Como uma consciência pesando sobre a mente de todos, quase como um alerta, como um aviso de que ali ninguém deveria pisar... ninguém deveria se aproximar. Alec não havia se movido desde que tocara com a tocha o óleo no chão, permaneceu aterrorizado olhando para aquela porta maciça e gigantesca. Seu olhar, depois de algum tempo, deslocou-se até Edward.

- Aí está, Cullen – disse ele com a voz de um morto – A eterna prisão de Arian.

E quando o nome do prisioneiro foi sussurrado, quando o ar antigo recebeu a vibração daquele nome um tremor perpassou pela porta da prisão como se algo a tivesse abalado... como se algo quisesse dela escapar.

- Charlotte – chamou Edward sem desviar os olhos vidrados da porta da prisão.

- Sinus Facio – sussurrou a bruxa de algum lugar do salão.

Um tremeluzir espalhou-se pela porta e então, grande como um outdoor luminoso das cidades grandes, um nome queimou em brasa ardente pela madeira envelhecida, mas não era como nas outras prisões, não foi uma luz dourada que faiscou na escuridão, mas uma luz avermelhada... rubra de ira. Surgiu no meio da porta com uma única inscrição na habitual caligrafia elegante: ARIAN.

Bianca de um passo a frente e olhou com fascínio o nome de seu amado, um sorriso diabolicamente prazeroso espalhava-se por seus lábios rosados.

- Seth, afasta-se para perto das escadarias com Giuliana e se acontecer alguma coisa quero que corra com ela daqui o mais rápido possível até ultrapassar a barreira do palácio e se colocar a salvo lá fora... avise Jacob para ele e os outros saírem também.

“Edward, você tem certeza?”

- Acredite em mim, meu amigo... nenhum de nós está preparada para isso.

- Você realmente continuara com esta loucura? - perguntou Charlotte emparelhando com Edward.

- Se hoje é o dia em que temos que morrer... então morreremos – respondeu ele – Alec, fique com Seth na sombra da escada, não quero que Arian se enfureça por ver encarar o antigo amigo que o traiu. E você também Bianca.

- E porque eu teria de me esconder? - quis saber Bianca.

- Por que ele pode simplesmente sair de lá e destruir tudo o que ver, se isso acontecer, em sua fúria, Arian pode matá-la sem perceber que está aqui. Não, prefiro que você fique segura nos primeiros momentos da liberdade dele... o futuro do mundo depende de sua capacidade de deter esta tormenta.

- Que seja – disse Bianca afastando-se para o fundo do salão, mas isso serviu para deixar Edward ainda mais temeroso, se mesmo Bianca não se garantia num primeiro momento, o que ele faria?

- Seth, não deixe que Bianca se descontrole e ataque Giuliana pelo cheiro do sangue.

“Por mim ninguém passa” - respondeu o lobo sem, no entanto, conseguir esconder o temor na voz.

Alec e Bianca se afastaram até as escadarias e desapareceram na escuridão longe da luminosidade do fogo, Seth esperou até Charlotte acordar Giuliana para coletar o sangue da menina a fim de quebrar o encantamento.

- Nós já chegamos? - perguntou Giuliana sonolenta.

“Sim, garota” - respondeu Seth na mente dela - “Mas está tudo bem, eu vou cuidar de você, pode dormir novamente”.

Com olhos sonhadores, Giuliana acompanhou Charlotte tornar a abrir o corte em sua mão, o sangue floresceu e um suspiro vindo de Bianca pode ser ouvido... a bruxa lambuzou a palma da mão com o sangue brilhante e depois cobriu o corte com uma bandagem esfarrapada. A menina sorriu para ela quando a feiticeira ergueu seu frágil corpo humano sobre as costas do lobo e antes mesmo de Seth se mover ela já estava novamente dormindo. “Menina estranha” pensou Charlotte consigo mesma.

Seth olhou nos olhos de Charlotte antes de ela se dirigir até a porta da prisão de Arian.

“Você não precisa fazer isso” - disse o lobo.

“Não temos escolha agora” - respondeu ela numa voz triste - “Morrermos todos aqui dentro se não o libertarmos”.

“Podemos morrer todos, libertando-o”.

“Então morreremos” - respondeu a bruxa afagando o rosto do lobo e depois se virando para a porta.

Seth caminhou até o fundo do salão ficando mais perto das escadarias e pronto a desaparecer dali caso alguma coisa saísse errada... ele lembrou com desgosto de todos os milhares de degraus que teria de subir para salvar Giuliana. Isso se Arian não destruísse tudo antes de ele sequer pensar em correr.

Kaori se posicionou ao lado de Edward no meio do salão, ele a olhou e sorriu um sorriso de agradecimento por ficar ao lado dele. Kaori estava completamente aterrorizada desde que olhara a porta da prisão e ainda mais quando o nome de Arian queimou a madeira feito lava incandescente. Mas não iria fugir.

“Seria seguro você se afastar daí” - disse Alec.

“Não deixarei Edward sozinho” - respondeu ela secamente.

“Esta lealdade ainda vai te matar, o que quer provar?”

“Já lhe expliquei isso”.

“Sim, eles são a família que lhe acolheu... mas você não tem noção do que está para sai daí de dentro. Não compensa lutar ou morrer por tudo isso”.

“Por isso você é um Volturi” - disparou Kaori - “Eu escolhi esta família e decidi morrer por ela. Além do mais, Alec, se não lutarmos por alguma coisa, algum princípio... cairemos por qualquer coisa”.

E Alec calou-se.

 

Charlotte passou por Edward com uma olhar claramente perdido, a bruxa parecia estar em estado de estupor, parecia estar sonhando... mas ainda assim ela caminhou em direção à cela. Dez metros, vinte metros, trinta metros e então parou. Restando poucos metros para atingir a porta, uma bruma estranha surgiu do solo como se estivesse se formando de si mesma, emanando do nada e erguendo-se à frente da feiticeira.

Edward preparou-se imaginando que aquilo pudesse ser algum mecanismo de defesa colocado ali para impedir que alguém tocasse a cela, e ele estava certo até um ponto: era um mecanismo de defesa, mas não ofensivo. Era um aviso.

A bruma ergueu-se e moldou-se em uma forma humanoide, surgiram pernas, braços, e uma cabeça e aos poucos surgiu um rosto. Um homem de meia idade com nariz adunco e olhos grandes e expressivos, os cabelos cresceram até os ombros e um gemido de susto escapou de Charlotte.

- Pai! - disse ela surpresa.

E neste instante o vulto de Forge falou numa voz espectral que ecoou por todo o salão.

- Intruso, sabeis vós que aqui adormecido está Arian Melchiorre Volturi. Aqui repousa Aquele que tudo Vê, O Inderrotável, O que Fende os Céus, Cavaleiro Deus, A Tormenta... O que não deve ser libertado. Não rompa o lacre, não apague o selo que queima nesta prisão. Se veio com o propósito de libertá-lo... volte. Pois ele é Aquele da Raiva Infinita. O Rebento das Marés. Você aqui morrerá.

- Pai! - tornou a chamar Charlotte tocando na bruma, mas seus dedos apenas traspassaram aquele corpo intangível não permitindo que ela o segurasse – Pai, sou eu... sua filha, Charlotte.

Mas o corpo de névoa não pareceu escutar o que a feiticeira disse, nem deu indícios de perceber sua presença tentando tocá-lo, apenas limitou-se a novamente repetir sua mensagem:

- Intruso, sabeis vós que aqui adormecido está Arian Melchiorre Volturi. Aqui repousa Aquele que tudo Vê, O Inderrotável, O que Fende os Céus, Cavaleiro Deus, A Tormenta... O que não deve ser libertado. Não rompa o lacre, não apague o selo que queima nesta prisão. Se veio com o propósito de libertá-lo.... volte. Pois ele é Aquele da Raiva Infinita. O Rebento das Marés. Você aqui morrerá.

- O que é isso, Charlotte? – perguntou Edward ansioso.

- Apenas uma impressão – respondeu a bruxa numa voz triste – Provavelmente meu pai deixou uma parte de sua magia neste lugar para avisar os desavisados. Ele deixou uma impressão de si para dar o recado, é apenas uma imagem, uma lembrança... nada mais que isso. Você ouviu o recado, Edward Cullen, agora decida-se de uma vez por todas: você libertará O que não deve ser libertado?

Edward não respondeu de imediato, olhando para a prisão, para o nome impresso em fogo e para o aviso do fantasma de Forge que ali repousava ele teve medo. Temeu libertar aquele vampiro e que todos os seus companheiros fossem mortos... pela barreira que Charlotte modificara Arian não poderia jamais deixar Volterra, mas ele parecia de tal forma poderosos que Edward temeu que mesmo a barreira não fosse capaz de deter sua força.

Ele pensou em dar meia volta e fugir dali.

Mas então lembrou-se que Aro estava prestes a se casar com sua esposa e lembrou-se de sua filha Renesmee. Quando carregou Giuliana escadaria abaixo ele se recordou de quando colocava Nessie para dormir na cama... e de como Bella o acompanhava sorrindo para dar boa noite à filha. E a raiva o tomou novamente.

Que tudo fosse destruído então... sua esposa e sua filha foram tiradas dele. Que o mundo queimasse.

- Liberte-o – disse ele numa voz monocórdia que ecoou como uma decisão final para todos ali... para todo o mundo.

 

Charlotte ultrapassou o espírito de seu pai e no mesmo instante a névoa desapareceu... ela aproximou-se da pesada porta e sentiu seu corpo todo tremer de medo, mas a visão de seu pai fortaleceu-a, foram os Volturi que destruíram sua vida e agora ela libertaria Arian para que ele destruísse a todos eles.

A feiticeira ficou na ponta dos pés e com isso espalmou a mão sobre o nome de Arian que fulgurava num brilho vermelho. Respirou fundo e disse a palavra de abertura das celas.

- Enogh!

Sua voz reverberou pelo salão vazio e o nome de Arian fulgurou com a intensidade de um sol ofuscando a visão de todos, Charlotte rapidamente saltou para trás posicionando-se atrás de Edward e Kaori.

A porta rangeu e sons de rocha se fragmentando e partindo encheu o salão. A pesada grade de ferro dividiu-se em duas, abrindo-se ao meio e deixando exposta a porta de madeira, em seguida um som como o de um estrondo reverberou pelo espaço sinuoso, sons de centenas de trancas espalhou-se por ali e a porta rangeu pesadamente como se fosse partir-se em duas. Vagarosamente, uma fenda escura surgiu no meio das duas portas e elas abriram-se arrastando-se como um casal de velhos, raspando pelo chão e estilhaçando-se enquanto realizavam o improvável movimento.

Finalmente, a cela da prisão estava escancarada e ali dentro havia uma escuridão intransponível, uma escuridão tão densa que parecia ainda mais escura que as sombras do salão, pareciam um ser vivo que movia-se sobre si mesmo como um portal para outra dimensão.

E da cela escura surgiu um vento, furioso como o de uma tempestade, velho como um ar tumular de milhares de anos, gelado como os ventos dos picos de neve eterna... e aquilo ali, todos perceberam, não era meramente um vento, era o hálito da perdição. Um cheiro de morte inundou como uma maré vazante o salão como o arauto da destruição. E havia até mesmo uma voz naquele vento estranho... uma voz que amaldiçoava o mundo que lhe fora negado.

Demorou algum tempo, talvez um ou dois minutos, talvez uma ou duas horas... mas os sons de passos pesados e lentos chegaram aos ouvidos do grupo estarrecido; um passo, depois outro e mais outro. O tilintar de metal rangendo depois de tantos séculos, e algo raspava a rocha criando uma faísca pelo chão... a escuridão nada revelava, a luz do fogo no chão do salão era incapaz de quebrar as sombras de dentro daquela cela.

Mas então ele surgiu, no limiar da cela escura, feito uma montanha descomunal... como um gigante.

 

Era alto como Jacob, passava facilmente dos dois metros de altura. Seu corpo estava envolto em uma armadura clara que outrora talvez tivesse sido esmaltada, mas que agora reluzia fosca num verde ferruginoso; os braços de músculos poderosos como aço, curtidos em batalhas sem fim, moviam-se lentamente ao lado do corpo. Na mão direita carregava um imenso e pesado machado de guerra de lâmina dupla.

Tinha o corpo volumoso e largo, era como um rinoceronte blindado de ferro, Edward imaginou qual seria a descomunal força física daquele vampiro... Emett não seria pálio para ele. Calçava pesadas botas com crivos de ferro e aço, uma cota de malha pendia por sobre as pernas e os vestígios de uma capa rubra desfaziam-se sobre usa costas.

Mas o mais impressionante era o rosto.

Era um rosto bonito, mas duro. Parecia que fora criado para batalhas e não fora feito com a capacidade de sorrir ou demonstrar qualquer sentimento que não o de guerrear. Os cabelos cor de areia caiam-lhe pelos ombros largos e fortes, uma barba densa e num tom levemente mais escura que os cabelos tomava-lhe o rosto lhe rendendo um aspecto cruel e selvagem.

Mas os olhos eram terríveis. De um vermelho sanguíneo e escuro, pareciam duas estrelas rubras brilhando na escuridão, olhos que não enxergavam... desnudavam. Aquele olhar era capaz de arrancar a pele de quem encaravam... causavam um terror inominável.

Arian era um viking nascido para guerrear. Um gigante do gelo com dons extraordinários, uma força descomunal e um corpo imortal. Ele causava o terror em quem por má sorte lhe deitava os olhos. Era aterrorizante em todos os sentidos. Um guerreiro cravado de aço e força. E desprovido de qualquer piedade.

 

No momento em que Seth o viu pensou em correr, mas não conseguiu. Quando o lobo viu aquele guerreiro deixar a cela teve a certeza de que estava tudo perdido, mas o olhar de Arian, a força que ele emanava simplesmente não permitiu que qualquer um deles pudesse se mover.

Edward teve certeza de que havia condenado a todos.

 

E quando falou, sua voz soou como o ribombar de trovões explodindo nos céus; era lenta, cavernosa e gutural, não era uma voz fácil de ser ouvida, não deslizava pelos tímpanos, mas arrastava-se lentamente causando arrepios. Soava naquele inglês arcaico semelhante ao de Bianca, um inglês velho e de difícil entendimento.

 

E não parecia a voz de um homem... nem a voz de um vampiro.

Parecia a voz de um deus.

 

- Estranhos... vocês me libertaram – disse Arian, sua voz reverberando no espaço vazio e nos corações dos que ali o encaravam com horror – E como prova de meu agradecimento... eu lhes darei uma morte rápida.

 

 


Notas Finais




Próximo Capítulo: Alice e Jasper



Outras fanfics de Earendil


Gostou da Fanfic? Compartilhe!
Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho dos outros deixando um comentário.

Para isto, Cadastre-se ou faça seu Login!


Carregando...